“Um dos meios de que a classe operária dispõe para lutar pela elevação dos salários, redução da jornada de trabalho e melhoria das condições de vida e de trabalho é a greve” (Luiz Falcão, A luta por melhores salários e a Revolução, maio de 2000).
A greve também forja a solidariedade de classe e demonstra a força que tem a união dos trabalhadores lutando juntos. Além de um meio de luta, a greve ensina aos trabalhadores que há uma diferença inconciliável entre os seus interesses e os dos patrões. Ela educa a classe.
Fazendo uma avaliação da greve dos trabalhadores da limpeza urbana de Petrolina, no sertão pernambucano, quando a categoria paralisou as atividades por três dias contra as precárias condições de trabalho (no mês de maio, durante a jornada nacional de lutas do Movimento Luta de Classes), João da Silva, agente de limpeza, declarou “…Era o que a gente precisava para se unir e discutir sobre tudo o que vinha acontecendo. A gente conseguiu muita coisa. Sozinho a gente nunca conseguiria, nunca tinha nem chegado onde chegamos. Aprendemos muita coisa”.
Elevar a consciência para conduzir a classe para a Revolução
Esse meio de luta dos trabalhadores é, ao mesmo tempo, um instrumento de reivindicação econômica (ou seja, de luta por melhoria do salário, redução da jornada, melhores condições de trabalho) e também o início de um confronto mais amplo contra a estrutura social capitalista. Segundo Lênin, as greves “Significam o começo da luta da classe operária contra esta estrutura da sociedade” (Sobre as greves, escrito em 1889).
A luta dos trabalhadores por suas reivindicações econômicas, de fato, é muito importante. Tanto é assim que Karl Marx escreveu, em 1865, que a luta por reivindicações econômicas, especialmente por melhores salários, é um fator essencial para preparar o enfrentamento ao capitalismo: “Se em seus conflitos diários com o capital cedessem covardemente ficariam os operários, por certo, desclassificados para empreender outros movimentos de maior envergadura” (Salário, preço e lucro).
A partir da luta econômica, a consciência de classe se desenvolve, permitindo compreender a necessidade de acabar com a causa dos baixos salários e das dificuldades econômicas, ou seja, o modo de produção capitalista.
Lutando contra o seu sofrimento, o operário ingressa na oposição aos efeitos do regime, o que é um passo no sentido de ingressar na luta contra o próprio regime. “Para a classe operária acabar em definitivo com todo o seu sofrimento é necessário realizar uma revolução que corte o mal pela raiz, ou seja, que acabe com o modo de produção capitalista” (Luiz Falcão).
A greve ameaça o capitalismo
No artigo de Lênin, Sobre as greves, ele afirma: “Quando os operários se negam a trabalhar, todo esse mecanismo ameaça paralisar-se. Cada greve lembra aos capitalistas que os verdadeiros donos não são eles, e sim os operários”. Veja a importância desse meio de luta! Ainda segundo Lênin, quando os operários levantam juntos suas reivindicações “Deixam, então, de ser escravizados”.
As greves influenciam não só os envolvidos na paralisação da sua fábrica ou local de trabalho, mas espalha a sua influência para outros trabalhadores: “Vejam que enorme influência exerce uma greve tanto sobre os grevistas como sobre os operários das fábricas vizinhas”; e ainda: “A greve ensina aos operários a compreenderem onde repousa a força dos patrões e onde a dos operários” (Lênin).
Papel dos sindicatos e dos sindicalistas revolucionários
No artigo de Luiz Falcão, fica claro que os sindicatos são fundamentais no processo de educação, para elevar a consciência de luta dos trabalhadores: “Os sindicatos sempre foram uma importante escola de luta de classes para as grandes massas trabalhadoras”. Assim, como escolas de luta de classes, os sindicatos devem servir para a educação revolucionária.
Mas a luta entre trabalhadores e burguesia produz também uma luta de ideias na sociedade. Essa luta de classes no terreno das ideias produz seus efeitos dentro do movimento sindical. Influencia a forma de pensar e de conduzir a luta pelas reivindicações dos trabalhadores.
No meio dessa batalha de ideias, os sindicalistas enfrentam argumentos cujo objetivo é afastar os dirigentes consequentes da tarefa de organizar as greves. Nem sempre esses argumentos revelam o seu verdadeiro caráter. Às vezes, esse objetivo de classe fica encoberto, escondido. É preciso identificar os interesses de classe que eles carregam e saber combatê-los.
A repressão
Um argumento utilizado para tentar convencer os dirigentes e os trabalhadores de que não vale a pena entrarem em greve é a repressão. A repressão pode partir do Estado, mas também pode vir dos patrões, por meio de retirada de direitos já conquistados ou ameaça de demissões e desligamentos em massa. Esse argumento sequer é novo. Já em 1889 Lênin afirmava: “Eclode, porém, uma greve, apresentam-se na fábrica o fiscal, o inspetor fabril, a polícia e, não raro, tropas”.
De fato, o Jornal A Verdade já publicou (abril de 2024) que “Em 2022, foram realizadas 376 greves e a Justiça interveio, de alguma forma, em 47,3% dos casos”. Nessa mesma matéria, a presidente do Sindicato dos enfermeiros declarou que “Na esmagadora maioria, a Justiça decide pela ilegalidade do movimento (…) as liminares saem antes de o movimento começar, inclusive, colocando multas altíssimas”.
Realmente, com base em dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) o total de greves de 2025 aumentou 14% em relação ao ano anterior – de 880 para 1.006 mobilizações e em 32% dos casos houve algum tipo de envolvimento do poder Judiciário. Apesar disso, na maioria dos casos (73%) houve algum êxito no atendimento das reivindicações, o que significa que a mobilização pode vencer a repressão.
Mas no lugar de ceder aos efeitos da repressão, o dirigente da classe operária mundial responde da seguinte maneira: “O operário começa a entender que as leis são ditadas em benefício exclusivo dos ricos”, e mais adiante “a greve abre os olhos dos operários não só quanto aos capitalistas, mas também no que se refere ao governo e às leis” (Lênin). A greve revela o caráter de classe das instituições do Estado no capitalismo. Essa é uma importante lição que a classe trabalhadora só pode extrair a partir da sua experiência de luta.
A preparação das condições para a greve
Outra questão que sempre se coloca é que a categoria não está suficientemente preparada e não compreende a importância desse meio de luta da mesma maneira que os dirigentes.
De fato, “As greves só são vitoriosas quando os operários já possuem bastante consciência, quando sabem escolher o momento” afirma Lênin. Mas a Rússia, no período da construção do Partido bolchevique, também não contava com um grande número de operários com essa consciência, coube aos comunistas mudar essa realidade.
Vejamos como Lênin tratou da questão: “Operários assim ainda há muito poucos na Rússia, e é necessário fazer todos os esforços para aumentar seu número, tornar conhecida nas massas operárias a causa operária, fazê-las conhecer o socialismo e a luta operária”.
À frente dos sindicatos, portanto, os marxistas revolucionários devem empreender os esforços que forem necessários para fazer avançar a consciência e criar as condições para realizarem a greve. “É fundamental que verdadeiros dirigentes operários ocupem seu lugar nos sindicatos e trabalhem para fazer avançar a organização e a luta da classe operária” (Luiz Falcão).
A luta dos revolucionários vai além dos melhores salários, queremos o Socialismo!
Também ocorre de os dirigentes sindicais dedicarem mais energia à negociação, do que a mobilização e a elevação da consciência da categoria. Não se pode perder de vista que a mobilização é a força fundamental no processo de negociação coletiva.
Isso significa que, durante as negociações e campanhas salariais, precisamos distribuir corretamente as energias para explicar nossos pontos de vista à classe à medida que se desenvolve a negociação com o patronato.
É preciso ter em conta que a nossa luta é “Não apenas para elevar seus salários, mas pela libertação de todos os humilhados e ofendidos pelo regime dos exploradores” (Luiz Falcão).
Por mais que, em circunstâncias especiais, a negociação possa trazer bons resultados, nenhum deles justifica renunciar à greve. É preciso enfrentar os obstáculos que afastam os operários das greves. Devemos trabalhar com empenho e dedicação para construir as condições para realizá-las.
Esse trabalho precisa ser desenvolvido de modo sistemático, cada vez mais profundamente, pois se trata de elevar a consciência da classe trabalhadora para permitir passarmos à luta pela destruição do regime de fome, miséria, guerras, carestia, violência e exploração que é o capitalismo e no seu lugar, edificar a sociedade socialista.
É por isso que não podemos renunciar à tarefa de organizar as greves!
Thiago Santos
