A Esquerda que Luta e a de luto: as ruas cobram o preço do descaso

15 de junho de 2026

Por Natanael Sarmento*

As ruas de capitais brasileiras voltaram a exibir a fratura exposta do campo progressista. De um lado, a esquerda que luta e apoia movimentos sociais de base (como Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB; greves de trabalhadores – como a dos trabalhadores da limpeza urbana, conduzidas pelo Movimento Luta de Classes – MLC), partidos como a Unidade Popular (UP), que não apenas apoiam como participam das lutas e confrontos contra o patronato e a polícia. De outro lado, a esquerda hegemônica e domesticada que pisa no freio das mobilizações e protestos para “não desgastar a imagem do governo”. Assim, acabam por fortalecer os fascistas, como dizem alguns arautos da esquerda do luto sobre as lutas que abandonou (ou jamais as teve) para se referirem aos que pisam o chão das fábricas e lutam nas favelas e dos que criticam os gabinetes institucionais contabilizando votos e coligações do programa “Meu Mandato Minha Vida”.

O grito dos que Lutam: Brasília, Natal e Recife em chamas

A mobilização nacional da terça-feira 10 do corrente, deixou claro que a paciência dos movimentos sociais esgotou. Na Esplanada dos Ministérios, do Distrito Federal, o protesto popular gerou a interdição quando manifestantes ocuparam a sede do Ministério das Cidades.

Na moral

A reivindicação do movimento é republicana e moralizadora. Populares exigem que a prioridade política do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ repasse recursos diretamente para às organizações populares e não através da “mediação” de grandes empreiteiras.

Desagradou

Setores do governo petista e de partidos nominalmente comunistas (apenas nominalmente), criticaram o movimento popular e alguns chegaram a considerá-lo provocação a serviço da “direita”. Quem tem uma esquerda que se posiciona contra protesto do povo por moradia digna, sem os conchavos das mediações que transformam o ouro do Tesouro Nacional em paredes que não suportam um prego não precisa de direita.

Lutas

No Rio Grande do Norte, o MLB interditou a BR-101, em Natal. Barricadas de pneus em chamas, no desespero de sem teto contra remoções forçadas. Em Pernambuco, o movimento com o mesmo objetivo, travou a Avenida Recife e outras vias estratégicas da Região Metropolitana contra os despejos das ocupações e em defesa da reforma urbana. No Brasil há mais imóveis desocupados para especulação imobiliária que pessoas vivendo em situação de rua.

O luto do abandono e a crítica de gabinete

O pano de fundo é o divisor de águas políticas de quem está efetivamente representando os interesses do povo e quem faz o papel de rufião na exploração populista e abandona as pautas de lutas das massas mais avançadas capazes de ocupar ruas, praças e ministérios.

Luto simbólico

Que os arlequins pirandelianos sirvam a dois senhores é problema deles, mas, criticar a militância aguerrida que sai na chuva e no Sol para fazer piquetes e barricadas, fazer greves e ocupações, é um sepultamento ou traição da luta, que não se justifica em nome de nada; e, muito menos de governabilidade à reboque de alianças ao centro e à direita.
Não consegue cumprir promessas de campanha. Nem aprovar a escala 5/2. Nem baixar juros escorchantes da dívida pública que consomem 80% do PIB direto para os cofres de ricos banqueiros e investidores. Esquerda?

Pautas

As frentes unificadas que lutam por moradia cobram do Governo Federal mais agilidade dos projetos habitacionais já aprovados e a ampliação do orçamento destinado às associações populares; e, acima de tudo, reivindicam o fim das reintegrações de posse das propriedades abandonadas em desfavor das famílias de baixa renda que as ocupam e utilizam, ameaçadas ou despejadas sob violência das ocupações e jogadas nas calçadas, sem garantia de realocação.

Encruzilhada da Base

A “esquerda” institucional tenta equilibrar planilhas econômicas e acena ao mercado imobiliário. A esquerda autêntica promove ocupações urbanas e avisa que lutará ao lado do povo. Entre o luto pelo que foi deixado para trás e a luta pelo direito de existir, as massas escolheram a luta e saíram às ruas, para desespero dos que negam a luta de classe, ou a colocaram debaixo de tapetes até depois da eleição. Depois de eleitos de forma “revolucionária” frenam a luta de classes por que o importante é a “governabilidade”. Governabilidade para quem, Cara pálida?

(*) Natanael Sarmento é professor,
escritor e integrante do Diretório Nacional da UP.