Subestimar o fascismo é um erro. Precisamos tomar as ruas do Brasil!

Subestimar o fascismo é um erro. Precisamos tomar as ruas do Brasil!

Esse tema, infelizmente, não é novo no seio da esquerda, principalmente do seu setor institucional. Na década de 1960, o golpe foi subestimado sob o argumento de que não haveria a menor condição de acontecer, que as Forças Armadas respeitariam a Constituição, que eram leais à democracia e ao presidente. O resultado foram 21 anos de uma longa e tenebrosa noite de terror, milhares de torturados e assassinados, milhões de desempregados, um dos governos mais corruptos da História e, como se não bastasse, nosso povo ainda foi silenciado e impedido de participar da política, de se manifestar e dar sua opinião.

O mesmo ocorreu no ciclo que vai de 2016 a 2018. Boa parte da esquerda subestimou Bolsonaro e suas ideias, levou seus discursos na brincadeira e, principalmente, priorizou as eleições e os conchavos institucionais ao invés das lutas populares.

Hoje, a subestimação continua. Vemos, por parte de alguns setores, o discurso de que não há probabilidade de golpe e também as críticas aos atos de rua. Mas, primeiro, há ou não possibilidade de golpe militar?

Enquanto existir capitalismo – e, com ele, continuam existindo as crises –, a possibilidade de uma ditadura terrorista do capital é algo perfeitamente possível de acontecer. Dito de outra forma, a possibilidade de uma ditadura é real em qualquer Estado capitalista. Como esta afirmação pode parecer muito ampla e não é minha intenção neste texto explicar a conjuntura mundial, atenho-me à situação do Brasil atual.

Temos uma República no Brasil fundada a partir de um golpe militar, por ex-senhores de escravos que se tornaram “republicanos” da noite para o dia, por conveniência, para impedir que o povo, em sua maioria, negro, realizasse sua própria independência e fundasse sua República. Esse golpe foi dado por classes dominantes altamente racistas, machistas, violentas e autoritárias, portanto, antipovo, utilizando-se das Forças Armadas e de muita repressão. Essas classes dominantes sempre impuseram suas rédeas durante todo o século 20. Impuseram outros dois golpes diretos, na década de 1930 e na década de 1960, sem contar os golpes velados, realizados nos bastidores.

Na década de 1980, a ditadura militar foi derrotada, mas seus elementos se rearticularam nas estruturas do Estado e seus principais aparatos não foram desmontados. O Brasil é o único país da América do Sul que nunca puniu os generais e demais agentes que, em nome do Estado, torturaram e assassinaram milhares de pessoas. Mesmo os governos de caráter mais popular, embora com avanços importantes em alguns campos, não desalojaram essas classes dominantes do poder. Inclusive, as fortaleceram até certo ponto, pois mantiveram a mesma política econômica, que levou os banqueiros e o grande capital a ter lucros fabulosos.

Voltando ao tema do golpe, esses mesmos setores das classes dominantes, contando com maioria no Parlamento, deram um golpe institucional em 2016. Um golpe que não foi principalmente contra a presidente Dilma Rousseff (PT), mas contra os direitos da classe trabalhadora. De lá para cá, mais ataques aos direitos com a Reforma Trabalhista, do congelamento dos gastos na Educação e Saúde por 20 anos (PEC dos Gastos), a carteira verde e amarela e a Reforma da Previdência. Ataques iniciados pelo presidente golpista e corrupto Michel Temer (MDB) e finalizados por Bolsonaro.

Segunda questão. O que falta ao Brasil é a gestação de uma esquerda que tenha como centro o enfrentamento a essas classes dominantes, que tenha formação e firmeza suficiente para não se vender, para colocar os interesses populares, os interesses da classe trabalhadora, à frente de qualquer outra demanda. Para isso, precisamos ter a capacidade de mobilizar o povo, para que, gradativamente, ganhar corações e mentes para que no próximo período sejamos capazes de mobilizar milhões.

Nós, da esquerda, ao contrário dos fascistas e da extrema direita, defendemos a vida e, portanto, continuamos defendendo o isolamento social. Por isso, os que estão no grupo de risco não devem ir às ruas. A luta contra a Covid-19 continua e a pandemia precisa também ser derrotada. Mas o principal obstáculo para derrotamos o coronavírus é o Governo Bolsonaro, os generais e banqueiros que o sustentam.

O Brasil não está quebrado, tem orçamento e riquezas suficientes para garantir que a imensa maioria do nosso povo fique em quarentena, que os setores realmente essenciais funcionem e que não haja sequer desabastecimento. Mas, ao invés de dar R$ 1,2 trilhão aos banqueiros e continuar pagando a criminosa Dívida Pública, como fez Bolsonaro, esses fabulosos recursos devem ser usados a favor do nosso povo. Por isso, a bandeira pelo “Fora Bolsonaro” deve estar presente em todos esses atos.

Estamos num momento que somente indo às ruas poderemos acuar esses golpistas. E os atos do último domingo fizeram com que eles recuassem. Apesar da mentira contada pelos fascistas, os atos da esquerda têm mais força e são muito maiores que os da extrema direita. As ruas pertencem ao movimento popular e não aos fascistas. Nelas lutamos melhor que eles e é neste campo que vamos derrotá-los.

Por fim, no momento atual, as torcidas antifascistas convocam a luta – e praticamente todos os partidos repudiam ou boicotam esses atos, mesmo que veladamente – e nós, da UP, nos colocamos para irmos às ruas, apoiar os atos e ajudar a organizá-los ainda mais. Estamos do lado certo da História, ao lado da democracia, da justiça, dos direitos da classe trabalhadora e do povo e não temos motivos para defensiva nenhuma em fazê-lo. Agora temos tarefas importantes. Não podemos ir às ruas de qualquer jeito, além do cuidado em relação à Covid-19, usar máscaras, luvas, levar álcool em gel, devemos cuidar também da segurança de cada um e cada uma.

Quem for às ruas, lembre-se também de que precisamos trabalhar para não cair em nenhuma provocação. As Polícias Militares colocarão os chamados P2 (infiltrados) para provocar confusão, fascistas vão provocar manifestantes para que revidemos e, com isso, justificar a repressão policial. Lembremos também que a necessidade de reforçar a unidade do movimento popular, dos movimentos, dos partidos comprometidos com a luta, dos torcedores das mais variadas torcidas, dos democratas, daqueles que defendem outro mundo onde a democracia popular seja possível!

Neste sentido, não esqueçamos o importante exemplo do povo Negro dos Estados Unidos, que, mesmo sob a Covid-19, enfrenta o racismo e o fascismo nas ruas e que vai encontrando as melhores formas de lutar, lutando! Por aqui, neste país de falsa democracia racial, temos muitos motivos igualmente para desencadear uma grande luta antirracista e por direitos, conectada a esse processo de lutas. São objetivos comuns! Impossível ser consequente na luta contra o racismo e não lutar contra o próprio sistema capitalista que o alimenta, e vice-versa.

O caminho é derrotar o fascismo, o Governo Bolsonaro e seguir a luta pela garantia dos direitos da classe trabalhadora para superarmos a pandemia e avançarmos para o povo estar no poder neste país! Fora Bolsonaro! Por um Governo Popular! Vidas negras importam! Ditadura nunca mais! Venceremos!

Leonardo Péricles – presidente nacional da Unidade Popular (UP) – pelo Socialismo!